O Vicente é meu 'sobrinho', é o cão da irmã do S., que não é só minha cunhada, é uma das minhas amigas mais próximas. O Vicente é rafeiro, é grande e vivia num apartamento em Sintra, numa varanda pequena. Embora ele seja grande, o corpo dele é pequeno demais para tamanha vida e energia que tem lá dentro, o que faz dele um cão irrequieto, às vezes bruto, mas a-do-rá-vel! O Vicente é apaixonante e a Y. perdeu-se de encantos por ele, e há um ano e pouco trouxe-o para viver com ela. Sabiamos que não ia ser fácil educá-lo a viver num apartamento, mas a Y. com amor, paciência e persistência conseguiu.
Ele adora-a e ela a ele. Viviam os dois e era perfeito, à excepção de uma coisa - ele tinha de ficar na varanda, porque destruía tudo dentro de casa. A Y. com o trabalho ficava o dia todo fora de casa e então ele tinha de ficar na varanda. Cheio de vida, cheio de genica, com necessidade de correr Kms, ficava num espaço reduzido, o dia todo.
Então, a Y. cheia de amor - sim, porque só mesmo com AMOR e consideração é que se toma uma atitude destas - decidiu dar o Vicente. Não porque 'não o quer mais', ou porque 'ele estraga coisas', como já foi acusada, mas porque apesar de tudo o amor, ela sabe que ele precisa de mais espaço, precisa de mais liberdade. Que infelizmente ela não consegue dar.
Ao fim de várias 'entrevistas' da melhor pessoa para ficar com o Vicente, ontem a Y. foi levá-lo à Dona Clara, uma velhota que está sozinha, que tem um quintal gigantesco, que tem imenso amor para dar e para receber. Não só vai ajudar o Vicente, como vai ser ajudada. É uma Sra. muito sozinha, que já foi criadora de cães e que tem a sensibilidade de perceber o que a Y. está a passar. Coisas como "nós vamos ser as duas Donas dele", "venha sempre que quiser", "fique com uma chave cá de casa", confortaram-nos imenso.
Isto é a Y. a ser maior que ela própria. Isto é a Y. a amar e a cuidar do Vicente. Isto é a Y. a ser maior do que a vontade dela. Isto é a Y. a ser maior do que qualquer pessoa, do que provavelmente eu conseguiria ser. Eu perdi a Dona Amélia, no verdadeiro sentido da palavra. Eu perdi-a e, apesar de sentir à minha maneira isto do Vicente, não imagino o que será termos de ser nós a tomar esta decisão.
Y: Eu sei que agora estás com o coração nas mãos, eu sei que fizeste a troca com calma e que mesmo assim ele sentiu, tu sentiste. Claro. Mas embora agora não te pareça, isto és tu a cuidar dele. E vais visitá-lo sempre que puderes e continuas tu a ser a Dona dele. Admiro-te pela tua coragem, pela tua bondade e pelo teu altruismo. Agora não parece, mas o que fizeste é uma coisa boa. E é louvável.

Comentários
Só vi agora o teu post. Fiquei tão surpreendida que mal comecei a ler desatei a chorar e teve de ser o C. a ler. Veio tudo ao de cima.. as saudades, a culpa, a tristeza, a alegria.. enfim. Tenho tantas tantas tantas saudades dele que ás vezes parece que o meu coração diminui de tamanho, de tão apertado. Mas sei que ele está bem. e isso é que importa. Obrigada pelas palavras, nem sabes como me fez bem mandar as lágrimas cá para fora e ler o que escreveste.
Obrigada =)
Baci!