É a coisa mais certa que temos nesta vida.
Não importa como vivemos: se somos boas pessoas, se pagamos impostos a tempo e horas, se reciclamos, se dizemos asneiras no trânsito, se somos educados, se somos as melhores ou as piores pessoas neste mundo. Eventualmente, todos acabamos por partir.
Para onde? Não sei bem…
A maneira como morremos também não tem nada a ver com a nossa prestação neste mundo. A ideia que os filmes infantis nos passam, de que os maus morrem com tiros e os bons morrem de velhinhos, mas sãos e lúcidos na cama, rodeados de filhos e netos? Nahh… esqueçam. (Ainda ontem fiquei a saber que uma rapariga que conheço morreu depois de dar à luz o primeiro filho!)
É algo que me preocupa. Não tenho medo de morrer, não é medo, é pena. Tenho pena de deixar tudo o que construí. O meu MEDO é de como vou morrer, de como vão morrer as pessoas que eu amo, isso sim, apavora-me.
Não é que fique horas a pensar nisto, mas na verdade todos temos este tipo de pensamentos às vezes, certo? “Irei sofrer? Irei perceber sequer que vou morrer? Será rápido? Será uma doença? Será com dignidade?”
Apercebi-me da pior maneira que às vezes a Morte não é má. De facto, afasta-nos de quem amamos e acaba com a vida de alguém, mas ao mesmo tempo que nos priva também devolve a paz e a dignidade.
E foi isso que te aconteceu Vovó. A tua morte devolveu-te a paz, a dignidade e o descanso que há tanto merecias. Todos nós sabíamos que estaria para breve e que partires era o melhor para ti. O facto é que a notícia da tua morte caiu como uma bomba. NUNCA ESTAMOS NEM ESTAREMOS PREPARADOS PARA PERDER QUEM AMAMOS, NUNCA! Não estava preparada para perder o Rui, como não estava preparada para te perder a Ti. E bem sei, foi para o teu bem.
O teu fim assinala o início do nosso fim Vovó. E apesar do teu ar exausto e doente, ainda bem que ainda me olhaste, ainda bem que ainda apertaste a minha mão, ainda bem que ainda te senti viva, que ainda te dei beijinhos contigo quente, ainda bem que te segredei ao ouvido “parte em paz Vovó”, “amo-te” e te cantei “ni nan ni nan” como me fazias.
E a certeza desse fim, veio com o grito em choro que me saiu do estômago Vovó, ao ver-te seres carregada pelo Papá e pelo Mano, com os sinos a tocar. Ao ver a angústia da mamã, da Titia e a angústia calada do Tio P. Naquele momento apercebi-me de quão assustadora é a eternidade e o facto de NUNCA MAIS te ir ver, te tocar, te dar beijinhos, morta ou viva. Foi um misto de revolta, pavor e remorsos, por não te ter dito todas as vezes que pude, enquanto estavas lúcida, o quanto te amo.
Resta-nos agora as tuas memórias, as tuas gargalhadas, as tuas refilices com o Carlitos, o teu amor pela tua casa, pelas tuas coisas. Resta agora rirmo-nos dos teus rituais e termos orgulho de sermos uma parte de ti.
Descansa em paz meu amor, minha Vovó!
** Morabeza Nhâ dôci amôr **
19-08-1929 a 12-07-2010
Comentários
não conheci a tua avó,mas a tua avó representa a avó de qualquer um de nós. a morte assuta-me. não a minha... mas a dos outros.
bj
Fazes mal, devia assinalar um renascer, devia significar a libertação, a independência, a construção pelas tuas mãos do teu futuro, do teu destino!
Devia significar a emancipação!!!
Vive mas é a tua vida e deixa de viver a vida dos outros pá!!!!
Amore....
Fiquei algo confusa com e teu comentário. Ainda assim, agradeço-o profundamente, pois não imaginei que alguém realmente lesse as minhas barbaridades.
Por falar em barbaridades: concordo em certa parte com o teu comentário, de facto, a morte da minha avó significa libertação e de certa forma independência, mas de todo emancipação ou renascimento. Na minha óptica claro.
Quanto à parte que me deixou confusa, "vive a tua vida e deixa de viver a dos outros". Hmmm, como explicar? Para me chamares amore e tratares por tu devemos ser intimos, o que não choca com o "anónimo" ou com essa completa barbaridade que escreveste!
O facto de perder a minha Avó, fez-me sem dúvida alguma sentir que perdi parte de mim, daí o início do meu fim, porque parte daquilo que sou, devo-o a Ela!
Portanto, caro Anónimo, a "vida dos outros", era a Vida da MINHA VOVÓ e eu não deixo de viver a minha vida, descansa, simplesmente vivo-a sem alguém muito Importante.
Assim, educadamente peço-te que me perdoes a sensibilidade e enfies o Amore onde o Sol não Brilha, "pá"!!!
Cumprimentos,
Raquel!